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segunda-feira, 8 de março de 2010

Cartões Emotivos- II






O Dia da Mulher


Ela acordou bem mais tarde que o de costume para uma segunda-feira. Vestia calcinha e camiseta. À medida que o sol lhe causava o clássico desconforto matinal ela ia fazendo o rotineiro alongamento de membros sobre a cama, enfim, espreguiçando-se. Direcionou as pernas para fora da cama e foi lentamente erguendo o restante de seu corpo. Deu um bocejo daqueles de escancarar a boca com os braços erguidos, firmou os pés descalços no chão tocando o carpete com os dois ao mesmo tempo, então, levantou-se. Caminhou até o banheiro, fez o que fora fazer pensando nas estatuas da Ilha de Páscoa, ou no Gael Garcia Bernal, ou tentando lembrar o nome daquela música do Chico... "Ah! Valsinha!". Em seguida ergueu-se, lavou as mãos, escovou os dentes com os olhos entreabertos, ainda com a escova na boca procurou espinhas e impurezas da pele do rosto no espelho. Terminou de escová-los, e começou a olhar seu cabelo no reflexo, penteou-o, em seguida ficou formulando estilos de penteados diferentes, fez caretas, poses e pôs a língua para si mesma diante do espelho. Saindo do banheiro retornou ao quarto e foi direto para a sacada, ali ficou durante uns dez minutos observando os que caminham sem rumo, os que pensam ter um rumo.



Na sala vasculhou uma gaveta até encontrar a capa de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Inseriu o dvd no aparelho, ligou a televisão e foi até a cozinha. No microondas o relógio marcava 14:47. Abriu a geladeira e, do freezer, saltava aos olhos um pote de sorvete, pela metade, sabor floresta negra, pegou-o, catou uma colher no secador de louça e voltou para a sala sentando-se lentamente no sofá. Com o controle remoto ajustou para que começasse o filme e foi aos poucos deliciando-se com o sorvete: tinha gosto de chocolate, mas, muito mais do que isso, de liberdade, o sabor de desafiar todas as leis das dietas, da estética e dos olhos alheios. Passou a tarde quase deitada aproveitando cada minuto do filme. Marcou-lhe o seguinte trecho de um diálogo:


Pintor: "Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes.".
Amélie: "Hummm, pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros.".
Pintor: "E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?".

Com o filme já nos créditos tocou seu celular. Este estava por perto, ao lado dos controles da televisão e do dvd, como o de costume. Se absteve por alguns instantes, mas, em seguida atendeu a ligação:

- Oi?!
- Leila?! Feliz dia internacional da mulher, minha linda! Vocês merecem, o que seria de nós sem vocês?! – disse uma voz do outro lado da linha a qual ela reconheceu pelo riso e pela empolgação.
- Quem somos nós?! – indagou com voz entoada.
- Vocês, as mulheres, minha flor! – explicou-lhe a voz cativante com tom de atuação.
- Ah! Pensei que estavas te referindo a nós... TUAS mulheres!-
- Como assim?! -
- Não me procuras há, no mínimo, duas semanas, e, em uma segunda-feira, por que deves ‘tá’ excitado e sem nada melhor para fazer, resolves me ligar para desejar uma boa data, que já passou, praticamente, a qual é extremamente machista, só para ver se me comovo e te convido para jantar na minha casa! - descarregou, como um trovão no céu vazio, uma rajada de vozes de mil duzentas e setenta e sete mulheres.
- O que tem de machista no dia da mulher?! - perguntou a voz curiosa.
- O biscoito pro cachorro que aprendeu um truque novo! Um dia no calendário para as mulheres por terem sido boas mães, professoras, esposas, secretárias, boas amantes e amantes boas! Eu sou muito mais estável financeiramente e feliz do que tu ou as tuas mulheres, e existe um dia de consolação pro coitadinho cafajeste ou para as quengas safadas?! Eu acho que a tua pergunta deveria ser: “Porquê eu não sou mais sincero comigo mesmo?” – ela mantinha a razão, classe e voz, mas, suas palavras tinham performances afiadas e cortantes.
- Olha, eu não sei nem o que te dizer. – escapou, como ar, da voz trêmula, entretanto, grave.
- Nada. Tu não és tão bom com as palavras como imaginas. Nem com os pensamentos. Muito menos na cama. Tchau e um feliz dia das mulheres para ti também. – ao termino destas palavras desligou o celular, atirou-o em um canto qualquer do sofá, correu até o rádio do quarto, aumentou bem o volume, e programou para tocar um Cd da Ana Carolina. Correu até a frente do espelho e, antes de começar a dançar, gritou:
- Agora sim, é o dia internacional desta mulher! – enfim, gargalhou.

3 comentários:

mics disse...

Este é um dos teus melhores textos... Pareceu um novo estilo... gostei da narrativa, do estilo... da forma como trataste o tema...

Unknown disse...

Como sempre, muito bommmmmmm :)

Lari ! disse...

tem um 'quê' de chico buarque nesse texto, parece que entendes a alma feminina.