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sexta-feira, 12 de março de 2010

Aperezas


Sem Memória


Era vinho, era amor.
A cachaça sem sabor
Salivava nas primaveras.
E a resposta das esperas:
Dor e dor.

Eram vidas e histórias.
Conquistas sem glórias,
Sorrisos sem sentido.
E o poema foi partido
Sem memória.

Eram moças, ou não,
Acreditando no coração
Que pulsava embriagado,
Incrédulo do pecado
Da ilusão.

O que fora não existiu.
Assim como veio, partiu:
Brisa sem rumo e conforto,
O mar, que não conhece porto,
O beijou e seguiu.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Asperezas09



Raiava o sol e o novo tempo. Os habitantes tribais exerciam seu ritual de agradecimento ao ano que os deixara e de preces e desejos ao que ocupava seu lugar. A esperança adentrava as veias de todos como vários córregos de um mesmo rio. Seria um ano para tentar o que se havia deixado de lado há tempos.

Entretanto, a chegada da nova era lembrara uma represa estourando. Vieram as enchentes. As pestes. Os venenos que há na floresta dos pouco iluminados. A guerra. As mortes. O sol fizera raras aparições. As trevas tomaram conta de toda a terra prometida. Logo, os sábios anciãos principiaram seus inevitáveis óbitos. Catástrofes. Bênçãos tornaram-se castigos divinos.

Caminhávamos em um vale em que a putrefação e uma atmosfera rançosa se fez comum. Moribundo era tudo em tal vale. Ouvíamos gritos de socorro, estertores agonizantes. Mãos erguiam-se entre cadáveres sucumbidos. Faces disformes que, em alguma coisa, lembravam bravos guerreiros apagados pelas fortes intempéries temporais. A fome. A sede. A alma cansada, necessitando repouso junto às melodias de confraternização. Antropofagia. Coprofagia. Orgia de demônios famélicos e insaciáveis.

Resistíamos pelo simples medo do perecimento, da extinção total de nosso povo. Não éramos muitos, mas, tentávamos ser, no mínimo, sobreviventes. O que se tornava mais e mais difícil à medida que nossos irmãos de sangue e espada caiam por terra; pessoas, lobos e frutos pútridos eram indistinguíveis.

Tão de repente quanto a queda de uma folha surge, tal qual na região boreal, o sol. Majestoso. Era uma hóstia folhada em ouro. Em seu resplendor fervoroso estava talhada a placa de recompensa aos que tanto sofreram e persistiram em caminhar no rumo do horizonte. Respiramos fundo, andamos até o topo do cerro em que nos encontrávamos e, enfim, nos deparamos com a verdadeira nova era, com um novo ano, possuidor de um repleto pomar natural. Colhemos e deliciamo-nos com o agridoce fruto da glória individual. Choramos e cantamos unidos por um só abraço.