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domingo, 17 de janeiro de 2010

Canções do Tempo - II


Domingo de manhã me dá tesão


É noite, é correria, prato de bateria, prato de bateria. É boca, é língua, é cervejaria, prato de bateria, prato de bateria. É carro, é moto, é gasolina, prato de bateria, prato de bateria. É cachaça, Maria, Carolina, prato de bateria, prato de bateria. É poça d’água, meia branca, prato de bateria, prato de bateria, prato de bateria. É um som bacana, companhia profana, prato de bateria, prato de bateria. Diversão aqui, porrada ali, prato de bateria, prato de bateria, prato de bateria. É amor, tanto amor que domingo de manhã dá tesão, corda de violão, corda de violão, corda de violão.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Canções do Tempo



Gauderiando.




Numa manhã de novembro, de sol, brisa e silêncio; sem maiores explicações, regressei a um lugar do qual já não lembrava. Quando reparei em mim encontrei vestindo um par de bombachas pretas de largura mediana, aparentemente do feitio de minha tia-avó Marcelina Braga, um par de botas baias, camisa xadrez – combinação entre vermelho e branco - e uma pequena boina cinza. Montava um rosilho-prateado com pescoço de ganso sinaleiro, orelhas tesas, atentas como olhos de zebu, e bom de cômodo. Descia por uma estrada de saibro na qual, de alguma forma, eu me sentia como a água que não precisa que a ensinem a correr pela sanga. Banquei o rosilho na rédea em um charco a beira-estrada, afrouxei o freio e o deixei beber à matar a sede. Refletida no espelho d’água percebi, pela primeira vez, a paisagem que me envolvia: toda a geografia fora manchada. Sem saber por que, eu recordava exatamente de como era cada coxilha, cada passo, cada paradouro daquela redondeza e, sem dúvida, houve a devastação da identidade local: monocultura de pobreza cultural até o último horizonte visível.


Segui pelo corredor até, em uma curva do caminho, chegar à frente de uma grandiosa tapera, com sua frondosa figueira e suas hospitaleiras ‘boas-vindas’ aos andantes. Era uma sombra tão refrescante quanto um banho de arroio ao meio-dia de um fevereiro de muito serviço. Conhecia bem o lugar. Apeei, cabresteei o rosilho até os fundos de um galpão grande de pedra que havia quase encostado a casa. Lá encontrei um pomar que, ao que parece, abandonado há certo tempo, mas, suas árvores ainda eram viçosas, apesar da ausência de frutas maduras. Desencilhei o companheiro. Só o deixei maneado, aprendi em algum lugar, talvez, o mesmo no qual eu me encontrava, que “nunca se facilita com cavalo novo”.


Levei os arreios nas costas até a frente da casa grande e os acomodei em uma calçada que havia por ali. Ali recostei com a cautela que se deita um cusco: na volta exata. Tirei de um bolso das bombachas um pacote de fumo e um livro de papel, tirei a boina da cabeça acomodando-a em um joelho, e acomodei um cigarro, com calma, perícia e saliva, o levando mansamente até a boca como uma engrenagem de uma máquina, em um movimento arredondado. O isqueiro estava no outro bolso, custei a achá-lo, risquei sua pedra e acendi. O papel e os excessos de fumo estralavam como palha seca na brasa. Então fumei. Com todo o merecimento suguei todo o serviço que passei para enrolá-lo e trabalho que a estrada me oferecera até ali em forma do prazer de uma tragada seguida da baforejada de fumaça em direção às nuvens. E ali fiquei, olhando o céu debutar de vestido violeta e tornar-se pouco a pouco noite, esposa mansa, submissa, dos que caminham sem rumo, dos que gaudereiam.

No horizonte o laranja brincava com o azul celeste quando parei o ouvido em um ruído conhecido: era arroz. Sem dúvida, era arroz pipocando em uma panela de alumínio, com contrapontos da colher de pau em sua luta diária. Ouvia-se perfeitamente a água da comida para cachorro pingando na chapa do fogão a lenha, e todo o escândalo dolorido da gota que cai. Conversa baixa, risos mais altos. Será que vivia gente naquela fria tapera recheada de lembranças matreiras? Cortando a minha reflexão um cheiro forte de terra se misturou ao perfume do bom fumo. Logo providenciei de catar as peças da minha montaria. De repente se abre a porta mais próxima da calçada onde eu estava acomodado e sai uma senhora que atira a água de uma bacia para longe, mas, quase me molha. Ela olhou em minha direção, mas, com o os olhos baixos, tornou-se para a sua porta e entrou novamente deixando-a aberta. Parecia não ter me visto, tive a sensação de ser algum animal, ou algo assim, por um momento. Então, um grito lá de dentro:

- Entra, tchê! – a voz era feminina, familiar, entretanto não reconheci.


Agarrei os arreios e entrei. Quase que sem controlar minhas pernas sentei em um banco de madeira, no canto oposto a um fogão. Logo em seguido veio uma moça, quase mulher - o milho embonecando - trazendo uma cuia em uma mão e uma garrafa térmica na outra. Quando, enfim, sentou-se prestei melhor atenção nela, era linda. Olho castanho claro, longos cabelos castanhos, pele cor de cuia, corpo bonito, imponente. No momento em que percebi a região do buço notei que lembrava a pétala de uma rosa branca, me fez recordar algo a mais. Então tentei dizer seu nome. Ela interveio como corrigindo o que não fora dito:

- Camila. É o meu nome. – fazendo uma expressão facial a qual não consegui interpretar.
Sem mais porquês a abracei e senti água subindo de minhas profundezas até as retinas.

- Mas, eu preciso saber... – tentei argumentar, entretanto, ela atalhou me pedindo que calasse e nos beijamos com a intensidade de um galope de penca.

Ao solta-la emalei minhas garras, levantei e fui até o galpão, sem olhar para trás. Garoava uma chuva refrescante, suave, leve. Peguei o buçal, fiz a volta até o velho pomar. Peguei o rosilho, tirei a maneia e o cabresteei até o interior do galpãozinho de pedra. Encilhei. Montei a cavalo. Fui até a porta da cozinha. Chamei:

- Camila, me vou, mande um buenas pro resto do pessoal!

- Espera! – ouvi seu grito nascido da cozinha. Logo ela saiu, com o mate em baixo do braço ainda. Me olhou nos olhos e perguntou: - Já vais?! Por quê?! Eu sei que é do meu colo que precisas.

Desmontei, olhei-a nos olhos e disse:

- Tens, sem dúvida, exatamente o que eu preciso.

Depois de beijos e mates quentes, do céu, uma garoa se desprendera.

- Entra, não é bom que te molhes. – disse-lhe com os olhos baixos e voz de outros tempos.

- Volta em seguida. – me pediu com o queixo trêmulo e voz de criança, virando-se para a porta e entrando.

Me pus a cavalo novamente e saí assobiando com tom de penar uma velha coplita do Dom Telmo de Lima Freitas:

Tanto vai, tanto vem,
Essa vida de gaudério
não é boa pra ninguém
Tanto vai, tanto vem,
Essa vida de gaudério
A lo largo não convém