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domingo, 14 de março de 2010

Fragmentos de Campo - II


Gineteada



Era uma manhã de sábado ensolarada e fria. Daquele frio que causa uma dor intensa a qual parece rachar os ossos, mas, que ao sol, ou na beira do fogo, dá um prazer e a sensação do degelo interno. A matilha de ovelheiros caminhava ligeiro, por vezes, trombando entre si, com línguas de fora, entrando e saindo do galpão, onde um rapaz jovem, de mais ou menos treze anos - vestindo um par de bombachas retas, esverdeadas, uma camisa térmica uruguaia, xadrez entre vermelho e bege, uma boina azul, acinzentada dos efeitos temporais, e, aos pés, sob as esporas, um par de botas baias manchadas de suor eqüino, com o cano levemente torcido - encilhava um cavalo colorado gordo, adelgaçado, parecendo ter sido esculpido por mão divina e muito bem concentrada. Das cocheiras vinha o chiado do rádio a pilha do peão caseiro que, varria o chão com uma vassoura de carqueja, quase dançando para aquecer o corpo.


Depois de apertar a sobre-cincha, sempre cauteloso, o rapaz, com o cavalo à cabresto, ao lado do portão do galpão pegou, pelo fiel, um mango cabo de guajuvira com uma tala chata mal-sovada. Saindo do galpão parou na frente das cocheiras. O caseiro encostou a vassoura contra as tábuas de um cocho e saiu até o portal recomendando:


- Paulino, não me facilita esse colorado! Isso ta de cocheira há dias, vai querer retoçar contigo!
- Só vou dar-lhe uma escramuçadinha, já deixei ontem a tarde inteira de mangueira pra dar uma alivianada.


O velho deu uma coçada na cabeça e, encolhendo os ombros, concluiu:


- Bueno...


O rapaz agarrou firme o cabresto, encurtou-o para o seu lado, fazendo o colorado andar em voltas, firmou o pé esquerdo no estribo do lado de montar e abraçou o patuá com o braço direito agarrando as rédeas curtas e parelhas sobre as cruzes do animal. Este tinha olhos trêmulos, nervosos, com a mesma ansiedade de uma criança, na qual não é possível distinguir a vontade de brincar, simplesmente, da necessidade inocente de fazer alguma picardia. Em um chute no ar lançou a perna direita que caiu encaixada nos bastos e o pé certo e firme no estribo.

O cavalo saiu troteando de lado, sempre espiando o que vinha montado em cima, tentando cheirar o bico da bota deste. Os ovelheiros, ao perceberem o prenúncio de lida grande, começaram de alvoroço ao redor do colorado que, cada vez mais desconfiado, de vez em quando atirava um coice esparramando os ladridos para um pouco mais longe. E assim se foram, homem e cavalo, tentando se entender. Quando, ao cruzar por um capão de mato, o colorado cravou os quatro cascos no chão e estaqueou-se. O tempo parou. O potreiro tomou um silêncio de altar, mal e mal um vento manso balançava as folhas de uma corunilha solitária próxima à eles. E, como um general comandando o avanço de uma tropa, o jovem largou do fundo de seus pulmões um grito de:


- Te acomoda, matungo! – seguido do trovejar de tala castigando a virilha do cavalo, e rachando o céu do silêncio.


O colorado aceitou o convite sem pensar duas vezes: murchou as orelhas num gesto de ofendido, coiceou um cachorro, talvez abrindo espaço e deu meia volta no ar virando-se para trás em direito ao galpão. Paulino apertou os lábios um contra o outro, franziu a testa e forçou bem os joelhos contra os bastos. Sentia uma mistura de receio com excitação, devido ao fato de aquela ser sua primeira gineteada. As crinas pretas, mal-tosadas sacudiam em um movimento descompassado, ligeiro como o bater de asas de um beija-flor. A cabeça desaparecera por entre as mãos, e, só apareciam, volta e meia, as ventas, pelo movimento de tentar tomar as rédeas da mão do ginete. Este seguia quieto, trabalhando com os estribos para manter o equilíbrio, assim como quem aprende a caminhar. As esporas beliscavam feito um lambari tenteando alimentar-se em um pedaço grande de carne. À medida que se sentia firme, ia ganhando confiança e trabalhando cada vez mais com o mango, que atentava à marca do animal com empenho de guerra. E assim seguiam: o de baixo parecia tocar um rasguido-doble em um violão imaginário com as mãos pelo ar e procurava as esporas com as patas, urrando com timbre de porco recém sangrado; e o de cima, misturava raiva, atenção e euforia, com as pernas cerradas sob o patuá protetor. Então, enfim, uma investida nas rédeas e pronto. Estaqueou-se novamente o cavalo colorado. O jovem ginete cutucou suavemente com as estrelas de ferro atrás da barrigueira e o quadrúpede saiu a trote.


Deram volta e se foram em direção ao fundo do potreiro. Os dois, agora, mais do que nunca, iguais à imagem de um centauro, unidos, fundidos pela vitória recíproca, pois a cumplicidade que este tipo de batalha gera elimina a existência de perdedores, ambos, provam, simplesmente, que são livres e que podem e devem usufruir juntos de tal liberdade.

Um comentário:

mics disse...

Muito interessante, rico! Cheio de imagens fortes! Pensei que um título mais chamativo talvez fosse "Centauro"... Gostei muito"