Guirlanda
Como eu teria um Natal feliz?! Como eu supostamente haveria passado um bom ano?! Porquê, afinal, eu teria de comemorar coisa alguma, pondo em vista que no Natal passado o maldito Papai Noel Sei lá Eu O Quê roubara algo muito importante de mim?! E lá estava eu. Sentado em um bar com uma taça na mão, desejando boas festas aos demais “familiares”. Papai Noel filho de uma grande quenga! Que se foda junto à suas renas!
Como eu teria um Natal feliz?! Como eu supostamente haveria passado um bom ano?! Porquê, afinal, eu teria de comemorar coisa alguma, pondo em vista que no Natal passado o maldito Papai Noel Sei lá Eu O Quê roubara algo muito importante de mim?! E lá estava eu. Sentado em um bar com uma taça na mão, desejando boas festas aos demais “familiares”. Papai Noel filho de uma grande quenga! Que se foda junto à suas renas!
Cedo o bar foi esvaziando-se. Até esta casta de bêbados mal-dormidos, fétidos; até esta matilha de coiotes sem moral tinha um lar, uma família, um parente, que seja. Eu não. Dores de dente constantes, três novas cicatrizes e coceira na virilha, não muito mais que isso era o que eu tinha. Esperei que saíssem os que estavam exercendo esta ação, deixei que acalmasse este movimento todo. Estiquei meio corpo por cima do balcão para pegar um guardanapo de papel, pois, havia resolvido escrever um soneto para Papai Noel. Pedi uma caneta ao Juca, ou Jureci, ou Vilmar, ou seja lá qual for o nome do garçom daquela taberna. Alcançou-me sem parar de conversar com um senhor careca que sempre se senta no mesmo lugar: encostado à parede ao final do balcão. Testei, a principio não funcionou a tal caneta, mas, conforme aqueceu a ponta escreveu perfeita e levemente os seguintes versos deficientes:
“Noel, Noel, teu gelo norte-americanamente frio
É insensível com os que nada tem a gozar
Corta fundo, neva dentro, choro antigo
Na má sorte de quem rir vai congelar.
Noel, Noel, entregador de coca-cola
Não leve a companhia, a camponesa,
Me terás mais miserável
Que o peru da tua mesa.
Noel, Noel, eu não tenho chaminé..."
Quando cheguei aí desisti, não conseguia mais. Me tomei por uma vontade quase que incontrolável de depredar a pele e as veias de meu pescoço com algo afiado, mas, não muito, pra que eu sentisse cada centímetro com maior intensidade. Resolvi incendiar algo. Precisava queimar, mas, nada que fosse comum para mim, como acender um cigarro, etc. Olhei em volta, mas, eu não queria sair da porra do bar, me sentia em casa lá. Então queimei o guardanapo do soneto dentro do cinzeiro. O ombro-amigo do outro lado do balcão se aproximou e me disse com tom hostil:
- Calma aí cara, pára de incendiar feito um doido varrido aí!
Eu olhei nos olhos dele e disse atirando duas notas de cinco por cima:
- Vai tomar no olho do cu!
E saí riscando a pedra do isqueiro até a porta do bar. Da porta pra fora uma garoazinha fina, uma neblina, muito parecida com choro de mãe, que molha muito pouco, mas, provoca uma lesão funda por dentro d’alma, ou peito, sei que dói até na ponta dos dedos, como se um alfinete transitasse por dentro da pele, só da pele, não entra na carne. Além da chuva só os ratos, os Papai’s Noel’s pendurados de maneira privativa nas janelas das casas e eu. Prestei a atenção nos “pisca-pisca’s” também. Alguns são bem bacanas. Talvez este fosse o tal espírito natalino, ou uma amostra grátis, sei lá.
Comecei a caminhar. Então, senti que vestia o manto da solidão, acabaram-se as fantasias. Me vi tão só quanto o som de uma sílaba nas profundezas do oceano; senti que ninguém poderia me ouvir, senti que o Papai Noel, e o maldito ano, me roubaram muito mais do que imaginava, eu era as ruínas de uma cidade, outrora feliz e ensolarada, ao término de uma revolução atroz.
Subi até a praça e encontrei uma imagem de presépio, desde então, a última coisa que lembro é de urinar nas patas da vaquinha e rir muito disso. Quando dei por mim já havia passado o Natal e era outro ano. Eu tinha hálito de menta e um sabor de vingança, uma sensação estranha de ter quitado uma dívida comigo mesmo, e uma espécie de sorriso, ou algo assim, se ensaiando na minha boca.
Um comentário:
Forte!
Estilo Bukowiski. As narrativas na primeira pessoa tem uma força muito interessante!
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