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domingo, 7 de junho de 2009

O Espelho de Valmor

Foto de Maria Emília Campos retirada do fotografosdeelvas.blogspot.com

Bueno, não postei ontem por motivos maiores e alcoolicos. Taí uma idéiazinha que me surgiu nem sei de onde. Gostei do tema, só não sei se a execução ficou legal:



O Espelho de Valmor



Valmor era um rapaz feio. Era, mais ou menos, tão feio quanto osso, ou cinzeiro cheio, ou vômito de quem comeu carreteiro e bebeu bastante vinho. Tinha olhos estrábicos, e tensos e estranhos, singularmente, atirados em uma cova funda e escura de olheiras. Sobrancelha espessa, densa, junta e alaranjada. O nariz como se tivesse sido jogado por acaso em seu rosto e por ali estivesse se esparramado. As faces eram escorridas, sua bochecha terminava passando o osso do maxilar. Tinha o lábio inferior muito farto, chegava a ser caído por cima da barba – ruiva e rala. Gordinho e um tanto desproporcional.


Ele era um rapaz tímido, encolhido, e, com um passo não diferente, vagava sem rumo certo pela XV de novembro na compreensiva, porém, insensível madrugada urbana. Trazia nos bolsos a chave de casa, o telefone, e a carteira com dinheiro que nem seu era. Quando cruzava na esquina com a Lobo da Costa, ali na região do mercado público e da praça Coronel Pedro Osório, uma moça o chamou. Era feia também, possuía uma barriga sobressaltando-se por cima de um cinto preto que segurava a saia curta de brim e mal e mal tapada por uma blusa grená com listras pretas. Andava de pés descalços e trazia sapatos de salto alto nas mãos. Sua feiúra poderia ser considerada beleza pelos que observassem os dois, claro, que isso de beleza é questão de ponto de vista.


- Tens um cigarro? – perguntou a moça de blusa grená.
- Não. – respondeu Valmor, depois de pensar bastante.
- Não queres ‘fazê’ um programa? –


Valmor tornou a se encontrar pensativo. Lembrou do tempo que fazia que não transava. E por fim balançou a cabeça num gesto de positivo.


- Daí é trinta. – alertou-o.
- Ta.
- Mas, eu só aceito adiantado.
-Ta. – disse Valmor entregando o dinheiro que havia em sua carteira.


Então, se lembrou que o tal dinheiro não era seu. Pensou bem, levantou a cabeça e viu a mulher correndo rua a fora com seu dinheiro. Com passos longos e desajeitados saiu correndo atrás da prostituta.


Correu inúmeros quarteirões. Quando se viu próximo a ela surge, de um lugar qualquer, um homem grande que o segurou pela gola da camisa.


- Ta pensando o quê?- perguntou o homem a Valmor.


Como sempre foi medroso e se sabia fraco, Valmor virou para trás e voltou a correr. Corria ofegante e quando olhava para seu perseguidor, por cima do ombro, sempre havia um a mais o caçando junto ao homem grande. De repente, era uma multidão gritando seu nome e o xingando. Valmor tentou voar, já havia conseguido um dia, mas, não pôde, pois, estava envergonhado por ter se envolvido em tal situação.


Ao chegar em uma esquina qualquer Valmor foi atravessar a rua, e, como vinha correndo, não se importou em pisar na poça d’água que havia no meio da rua. Eis que ele afunda. Quase se afoga. Começa a nadar desesperado. De repente encontra uma escada submersa. Sobe por ela até sentir-se estranho, pois, havia saído da água, mas, o que fora horizontal tornara-se vertical. Olhou para trás e água tinha era agora um espelho, um gigantesco espelho. Agora era dia claro. E seu reflexo era de uma pessoa linda, aliás, não só uma pessoa bonita, mas, o mais lindo de todos os homens. Havia flores por toda a parte. Percebeu-se, a partir daí, cercado de belíssimas mulheres. Os animais vinham o cheirar, cães, gatos, pássaros. Ele era feliz. Sorria. Conversava com os que o rodeavam. As mulheres disputavam para o beijar, tocar.


E, como uma trovoada em um dia ensolarado, desperta o celular. Valmor levanta, feio como sempre e inconformado, mas, o pior é que não lembra com o que acabara de sonhar.

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