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quinta-feira, 4 de junho de 2009

O bêbado e o pontilhão


Aí vai uma idéia, que eu tive a muito tempo, e acabei escrevendo só hoje. Espero que quem leia goste:




O bêbado e o pontilhão


Era uma noite destas de fim de verão. Daquelas que nascem quentes e vão esfriando em um passo lento e desajeitado. Num passo muito semelhante vinha um homem, estatura mediana, pele queimada, bigode grande, o resto da barba rala, vestia uma bombacha com mais remendos que o céu pouco estrelado, arrastava um chinelo de dedo, camiseta com estampa de bloco burlesco e um boné de propaganda de loja de auto-peças. Visivelmente alcoolizado. Sem-dúvida alguma, um filho do êxodo rural. Bebia, provavelmente, para esquecer onde estava e para relembrar de onde veio, como a maioria de nós.

Subia a Dom Pedro, que estava sendo reformada para o trânsito de ônibus. Quando chegava quase na esquina da Gonçalves decidiu atravessar para a outra calçada. Entretanto, para atravessar no ponto no qual ele resolveu só havia uma maneira de se deslocar da calçada até o meio da rua: por cima de uma tábua de madeira atravessada sobre uma vala de mais ou menos trinta centímetros de profundidade e um metro e meio de largura, que era onde estavam acontecendo as tais obras. Eis o grande desafio.

A tábua, com certeza, devia ser uma tábua desleal e prevalecida. Onde já se viu desafiar um homem neste estado?! Mas, ele tinha que provar que podia. Provar que ainda era o mesmo que, outrora, domara o selvagem, gineteara qualquer animal que se movesse e fizesse sombra. Provar para ninguém mais do que para ele próprio. Parou frente à tábua e ali ficou se embalando, uns cinco minutos, mais ou menos. Cena esta que chamou a atenção dos que bebiam e aproveitavam a madrugada limpa dos privilegiados ali pela esquina da Gonçalves e nos demais bares da redondeza. Ele torcia a cabeça. Pensava. Falava. Ria. Resmungava. Só não chegou a chorar, pois, não estava acostumado com tal ação.

De repente se viu cercado pela torcida inquieta. Apostavam. Falavam alto. Inventaram gritos de guerra. Até um apelido para o nosso guerreiro surgiu: ‘Pirata’. O apelido carinhoso dado pela torcida era justificado pelo nome do bloco carnavalesco o qual estampava sua camiseta: Os Piratas do Trago. E lá estava o Pirata. O Pirata e a tábua. Os dois se encarando, trocando xingamentos e um cuspindo no outro.

- Vamo que vamo Pirata! – cantava sua torcida alongando a última vogal de seu vulgo.
Ele pôs um pé na tábua. Desequilibrou, pensou demais e acabou voltando. Atitude bastante sensata para quem estava naquele nível alcoólico.

- Uuuuuuuhhh!!! – a torcida foi a loucura com esta.

A imprensa já estava toda no local. Galvão Bueno narrava de cima de uma Kombi: “Parrrrrtiu pela direita, fez o drible, acabou recuando! Não perca amanhã mais um capítulo eletrizante de A Indomada.” E uma outra voz vinda de algum lugar, o qual nunca se descobriu, gritava coisas como: “Velho Barreiro – a patrocinadora oficial deste evento”. Neste momento o local estava lotado.

Acidente de bicicleta. Mula parindo. Acompanhamento musical. Casório. Desquite. Acontecia de tudo ali por aquele cruzamento na expectativa de que o grande “Pirata” vencesse ou caísse de uma vez da maldita (e desleal) tábua.

De repente sai baixinho da boca do ébrio:

- Vai ver... Essa é pela minha mãe, fiadaputa! – nem Deus sabe porque ele fez essa singela dedicatória.

E com três passadas, ligeiras e precisas atravessou a tábua. A esquina inteira vibrava. Galvão, enlouquecido, gritava repetidamente: “Ta lá, ta lá, ta lá...”. Mulheres choravam emocionadas. Homens também. E no meio da rua, finalmente, gritando: “Toma! Toma!”, estava o heróico e bravo homem de bombacha remendada e chinelo de dedo. Quando, de repente, sem mais nem porquê, surge um fusca azul calcinha dirigido por uma senhora de idade avançada. Desce rasgando a Dom Pedro e quase pega o nosso campeão. Que por sua vez, se desequilibra por causa do automóvel e cai dentro da maldita vala.

Um comentário:

Unknown disse...

ÁÁ, que engraçado!
Queria ter presenciado o bebado e o pontilhão!